Literatura estrangeira é muito melhor

Por Rogers Silva

Um dia visite as listas dos livros mais vendidos de qualquer revista brasileira. Não se contente em ver a lista do mês corrente. Se possível, pegue as listas mensais dos mais vendidos de todo o ano de 2010 no Brasil. Se tiver paciência, aproveite e pesquise as listas de 2009. E de 2008. Perceberá nelas algo estranho: em todas, entre os mais vendidos está uma maioria esmagadora de livros estrangeiros. O que explica esse fenômeno?

Como este texto não tem a pretensão de ser científico nem a Revista Pâncreas é uma revista acadêmica que me exige os objetivos, a justificativa, a descrição metodológica e dados empíricos para comprovar meus argumentos, discorrer sobre o assunto fica mais fácil, uma vez que parte de uma opinião pessoal baseada em impressões, mas também em fatos. Assim, não julgue o texto pelo que ele não é nem se propôs a ser – um texto científico.

Este texto é uma introdução a um (outro) texto a ser publicado n’O BULE (www.o-bule.com), ainda sem data definida, mas com nome definido: Literatura é uma merda. Não vem ao caso discorrer sobre ele, mas nele discuto – além de muito do que coloco a seguir – sobre a literatura de entretenimento, a leitura no Brasil e opino sobre os possíveis motivos de se vender menos (em quantidade de livros, e não necessariamente em número de autores) literatura nacional do que literatura estrangeira. No texto Literatura é uma merda listo as possíveis causas para essa realidade.

A mais óbvia e, em contrapartida, mais arraigada e de difícil mudança é cultural – o brasileiro tem um fetiche histórico e “inexplicável” por coisas de fora, sobretudo da Europa (ocidental) e dos EUA. Alguns chamam isso de síndrome de vira-lata. Outros, de colonização. Alguns, de alienação. E muitos, de burrice mesmo. Ou seja, sentimos prazer em admirar, idolatrar, ouvir conselhos e teorias sobre nós mesmos, e enriquecer gringos. Já admiramos Portugal, França, Inglaterra, EUA, mas sempre sentimos uma dificuldade enorme de admirarmos a nós mesmos (situação que parece estar mudando um pouco nos últimos anos…).

Para nós, eles são melhores do que nós: o metal nórdico é melhor do que o metal mineiro; Fernando Pessoa é melhor do que Drummond; filmes imbecis de Hollywood são melhores do que ótimos filmes brasileiros; o futebol espanhol é duzentas mil vezes melhor do que o futebol brasileiro; Dan Brown é melhor do que André Vianco etc. Para alguns inclusive (veja o absurdo a que o complexo chega…), Maradona é melhor do que Pelé.

Para nós, mesmo sem conhecimento de causa (alguns não conhecem o metal mineiro, nem Drummond, nem o cinema nacional, nem profundamente o futebol brasileiro, nem a literatura de André Vianco, nem as jogadas geniais de Pelé), eles são melhores do que nós. Sem dúvida. Se um gringo falou, deve ser verdade (Harold Bloom falou que entre os 100 maiores gênios da literatura universal, um tantão era estadunidense e um, só unzinho era brasileiro – e nós acreditamos). Sentimos devoção por gringos. Seres iluminados e superiores, impõem o que vamos pensar, falar, fazer e gostar. E gostamos. Somos extremamente obedientes. Para nós, os brasileiros são todos um bando de ladrões. Os políticos brasileiros, corruptos. No Brasil nada funciona. Não só a literatura, mas também o Brasil é uma merda.

Paradoxalmente, nos incomodamos quando algum gringo fala a verdade sobre nós, sobretudo quando essa verdade toca em nossa ferida, quando a verdade é um defeito evidente (vide Sylvester Stallone quando disse que qualquer um pode vir ao Brasil e explodir tudo e mesmo assim receberia um ‘Obrigado’ e um macaquinho de presente (essa parte do macaco é mentira!)). Nossa auto-estima é inexistente. Nossa capacidade de autocrítica é abaixo de zero. Enquanto isso, porque alguém falou e recomendou e impôs, compramos livros estrangeiros…

É um argumento/discurso simplista, claro está, mas a meu ver esse traço cultural é a base primeira do problema: editores acreditam que a literatura estrangeira vende mais e, em conseqüência, a chance de lucrar com ela é maior; os publicitários aceitam essa verdade e trabalham em prol do produto estrangeiro; os consumidores (influenciados e impressionados pela propaganda de tal livro de tal autor estrangeiro, que nos EUA vendeu trocentos milhões de exemplares), por sua vez, compram os livros estrangeiros, muito melhores do que os nacionais, é óbvio. A ordem não necessariamente é essa (editores, publicitários e consumidores), nem muito menos os atores são apenas esses.

Os editores, por acreditarem que o autor Fulano dos EUA venderá muito mais, pagam R$ 200.000 pelo direito autoral de determinada obra ao invés de investirem R$ 10.000 em 20 autores nacionais para cada qual publicar 1.000, 2.000 exemplares de sua obra. É uma atitude condenável? Financeiramente falando, de forma alguma. Ao contrário, já que buscam o lucro, é o mais sensato a se fazer. Os outros profissionais do ramo, que não têm muito a ver com essa história toda, trabalham arduamente para aquele autor estrangeiro, porque aquele autor estrangeiro é quem paga o seu salário. Afinal, é aquele autor estrangeiro que é comprado/consumido pela grande maioria pensante da população leitora do Brasil. Sim, com muitos itálicos. Voltando aos editores, é possível que esses mesmos que gastam R$ 200.000 pelo direito de um livro não gastem R$ 1.000 para pagar um tradutor (brasileiro) por uma tradução (de qualidade). Até porque alguns tradutores fariam o serviço por R$ 500…

Por outro lado e a contribuir indiretamente com a situação, parte da intelligentsia, dos professores, dos pesquisadores especialistas, dos críticos brasileiros faz sua parte, prestando um desserviço à literatura brasileira, ao não aceitar qualquer coisa que não seja clássico ou original, na sua concepção de originalidade. Não valorizam a importância da literatura brasileira de entretenimento, mesmo que de qualidade. Apedrejam autores que se propõem a tão-somente entreter o leitor. Inteligentíssimos, eles não aceitam obras que não sejam originalíssimas, ou que posem como tal, ou que a partir delas não se possa explicar a cultura e a história brasileiras. Para essa tribo (parte da intelligentsia brasileira), ou você é um clássico ou você é um gênio ou você é, no mínimo, vanguardista. Fora disso, você, caro escritor, é uma merda.

É difícil saber, após essas reflexões, o que é causa e conseqüência nessa história toda – se a causa das editoras não publicarem autores nacionais é o fato dos leitores brasileiros não lerem a literatura do próprio país; se os brasileiros não lêem a literatura brasileira porque o que sempre está em destaque e chamando a atenção é a literatura estrangeira; se a literatura de qualidade brasileira é mais do que os leitores brasileiros exigem e querem para se entreter; se, ao contrário, a literatura brasileira de entretenimento é de qualidade baixa, aquém da literatura estrangeira, e por isso preterida pelos leitores brasileiros; etc. etc. A fobia é de quem: das editoras, dos leitores, da intelligentsia? Ou de todos? E fobia a quê: aos escritores nacionais, à literatura nacional, à literatura de entretenimento?

Nossa, que complexo…

 

rogerssilvaoriginal.blogspot.com

@rogerssilva



7 Comentários

  1. TS Bovaris escreveu:

    Talvez no passado tenha de fato sido o tal complexo de vira-lata, mas hoje não sinto nenhum preconceito por parte dos leitores.

    No passado os formadores de opinião tinham a base de seu conhecimento ancorados em informações vindas de fora: livros e ensino superior. Hoje, com a internet e com a ampliação cada vez maior do leque de autores nacionais esta realidade tende a mudar. O próprio conceito de “formadores de opinião” está caindo por terra.

    Quanto a Vianco e Dan Brown, sou leitor ávido de ambos. Se Vianco tem histórias interessantes e escritas em bom ritmo, Dan Brown tem algo que não consigo descrever – as palavras voam durante a leitura e mesmo pesquisando dados adicionais na Net acabo de ler seus livros em dois palitos.

    • Rogers Silva escreveu:

      TS Bovaris,
      também acho que esse complexo de vira-lata tem diminuído bastante nos últimos anos. No entanto, a meu ver, ainda existe, e é forte na população brasileira. Tantos séculos de colonização e influência midiática estrangeira não se extinguem assim tão facilmente.

      Também acho que a internet tem dado – e ainda vai contribuir bastante – para a difusão da literatura brasileira, sobretudo a novíssima. Oxalá!

      Obrigado pelo comentário.
      Abraços.

  2. Claison Melo escreveu:

    Temi sua reportagem porque você a colocou como sem propósito, mas, além do aparente empirismo, você baseou-se em busca para consegui-la fazer tão consistente. Respostas para as perguntas acima não são necessárias. Vejo pessoas, a grende maioria, vangloriando livros estrangeiros (na imensa maioria americanos) porque conhecem apenas a eles e nunca tiveram o prazer de conhecer Luis Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Rachel de Queirós, Fausto Silva, João Ubaldo Riveiro, Raduan Nassar, Rubens Alves e Fonseca, Carlos Drummond, Maçal Aquino, Hilda Hilst, José Lins do Rego, e inúmeros outros, que não são necessariamente de entretenimento. E, quando a literatura se faz arte de entreter no nosso solo tupiniquim, temos Eduardo Sphor, André Vianco, Marcelo Rubens Paiva, Roberto Freire, Maitê Proença e outros.
    A o peso da questão é desconhecimento, aversão, descomprometimento. E alguns autores não se cedem ao jogo midiático para fazerem solo – lado bem inverso se comparado ao norte seguido pelos americanos que vendem aqui: não qualidade, maiormente ajuda midiática.

    • Rogers Silva escreveu:

      Caro Claison,
      você citou aí, em seu comentário, muitos clássicos. Fica como sugestões para aqueles que querem conhecer melhor a literatura brasileira: Luis Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Rachel de Queirós, João Ubaldo Riveiro, Raduan Nassar, Rubens Alves e Fonseca, Carlos Drummond, Marçal Aquino, Hilda Hilst, José Lins do Rego.
      E obrigado pelo comentário!
      Abraços.

  3. Dag Bandeira escreveu:

    Rogers, console-se,amigo. A Ana Cristina Melo, além de excelente escritora de livros infantis,juvenis e para adultos sofria desse mesmo desgosto: ver a literatura estrangeira divulgada muito mais do que a nossa aqui, dentro de nossa própria casa-pátria. Aí, o que ela fez? Criou o jornal Sobrecapa Literal. Um cantinho dedicado à divulgação da boa Literatura Brasileira. Dê uma passada lá. Você vai me achar lá também.

  4. Cesar Silva escreveu:

    Tese interessante. Embora não seja novidade para ninguém, sempre há algum pudor em colocar as coisas dessa forma.
    Como autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, disponho de dados empíricos sobre o fenômeno e você está coberto de razão. Os editores preferem publicar estrangeiros. Se é porque vendem mais, eu não sei, porque sempre me pareceu que em matéria de ficção fantástica, sempre se vendeu pouco. Stephen King, por exemplo, é um caso típico. Apesar de ter muitos títulos e ser famosíssimo, seus livros nunca foram bestseller no Brasil.
    Também percebemos a avidez com que as grandes editoras avançaram na fantasia depois que Harry Potter abriu o mercado. Trouxeram ao país uma pletora de séries obscuras, de origens tão diversas que até espanta, mas de autores nacionais, praticamente nada. Este fenômeno ainda está em curso.
    Observamos no Anuário, em artigos bem detalhados do jornalista Marcello Simão Branco, que nos últimos dois anos, especificamente no nicho da ficção fantástica, os títulos nacionais têm superado os estrangeiros em números absolutos. Ou seja, foram publicados mais títulos nacionais do que estrangeiros ou, na maior parte do tempo, pelo menos a mesma coisa.
    Mas, relativamente, o mesmo não se dá, porque os títulos estrangeiros são editados por grandes casas, com tiragens igualmente grandes, enquanto os nacionais são em sua esmagadora maioria publicados por nano-editoras – a maior parte das vezes financiados pelos próprios autores – com tiragens ridículas que quando muito chegam a meio milhar. Ou seja, comparando tiragem com tiragem, os estrangeiros predominam amplamente.
    Além do que onde interessa, qual seja, nas livrarias, os títulos nacionais não aparecem porque não são distribuídos. Ali observa-se o real desequilíbrio que o leitor médio encontra. Ainda que haja uma grande quantidade de títulos de autores nacionais rodando por aí, eles não chegam aos leitores, porque não chegam às livrarias. O leitor só vai achá-los se procurar por eles na internet, nos sites das editoras ou com os seus próprios autores.
    Não acho que há resistência do leitor ao livro nacional. Se o livro nacional aparecer ao alcance de suas mãos, ele o lê. Se alguém tem preconceito nessa relação, certamente não é o leitor.
    Há uma relação predatória das “majors” no mercado, que estabelecem relações suspeitas com as distribuidoras, tornando o mercado quase cartelizado, um espaço viciado e dócil aos seus interesses mercantilistas. Dessa forma, os distribuidores não trabalham bem, quando trabalham, para as editoras pequenas. Se a editora não publicar pelo menos 5 títulos por mês, não consegue a atenção de uma distribuidora.
    Sem esquecer de que nos pontos de venda rolam coisas do arco da velha.
    Um exemplo é o citado André Vianco – entrevistado no Anuário 2008 – que sempre conta como seu primeiro livro “Os sete” se tornou um sucesso de venda ao ser exibido com destaque numa única livraria de Osasco, sua cidade natal, porque ele negociou isso diretamente com o livreiro. Hoje Vianco está devidamente fagocitado pelo mercado, confortavelmente instalado numa das majors as quais me referi.
    Talvez o ebook e os tabletes mudem esse quadro. Talvez não. Mas enquanto o livro for um produto comercial, haverá sempre pouca chance para os autores brasileiros.